Compilação de Entrevistas


Nome completo:   António Manuel Pinto Tibério
Idade: 78 anos
Local de Nascimento: Terrugem, Elvas, Portalegre
Escolaridade: 4ª classe
Situação actual: Reformado

Comecei a trabalhar na Lisnave com 35 anos [ano de 1966]. Inscrevi-me. Eu estava lá na terra e o meu pai mandou-me uma proposta. Na altura trabalhava na Direcção de Estradas de Évora. Fui chamado e fiquei logo efectivo. Fiz um exame psicotécnico, a inspecção médica e o exame profissional. Todos os anos tínhamos de fazer uma inspecção médica.
A Lisnave não exigia, inicialmente, nenhum tipo de escolaridade obrigatória. Até havia lá pessoas que não sabiam ler, mas eram aquelas pessoas mais antigas, mais velhas que já vinham do estaleiro da Rocha. Depois é que fizeram a Margueira.
Era motorista. Era motorista de pesados. Trabalhava com qualquer carro, com qualquer máquina lá. Com camionetas, com carrinhas, com empilhadores, com tractores. Tudo. Conduzi uma Kamag. Tinha 56 rodas. Cheguei a conduzir as duas. Uma que transportava até 60 toneladas e outra até 200 toneladas.
Na altura vim ganhar 85 escudos por dia. Melhorei a minha vida. Lá onde trabalhava ganhava menos e ao vir para Almada fiquei junto de toda a família, o meu pai e os meus irmãos já estavam todos cá, só eu é que andava por lá. Trabalhei por turnos. Costumava fazer os turnos das 8:00H às 17:00H e das 17:00H às 00:00H.
A Lisnave estava organizada por várias secções. Eu pertencia à secção dos transportes. Depois havia outras secções, havia muitas secções. Havia algumas que eu nem cheguei a saber o nome delas. Os capacetes que usávamos tinham cores diferentes, era o que distinguia o pessoal das diferentes secções, mas nos primeiros tempos da Lisnave não havia nenhuma distinção. O capacete da secção de transportes era amarelo.
Quando iniciei a minha actividade na Lisnave senti que tínhamos alguns privilégios em relação a trabalhadores de outras empresas. Havia uma espécie de cantina em Alcântara, nós tínhamos um cartão e íamos comprar algumas coisas, porque eram mais baratas. E mais tarde também tivemos um cartão da Maconde. Mas pouco tempo depois deixámos de ter essas regalias.
Progredi na carreira. Comecei como oficial de 3ª e quando saí, era oficial especializado.
Tínhamos um mês de férias para gozar e podíamos distribuir os dias como quiséssemos. A única condição é que tínhamos de tirar 15 dias seguidos. Gostei de trabalhar na Lisnave.
Tive um acidente, logo no princípio. Eu estava com o tractor a distribuir o material e veio uma camioneta com umas chapas e caíram-me em cima. Depois fui para o hospital da CUF, tinha duas costelas partidas, estive lá 12 dias internado. Quando saí fui para o seguro. Outros colegas meus tiveram acidentes e cheguei a levar dois mortos dali, na ambulância. Vi lá tantos acidentes. Na altura, quando eu estava de férias, morreu lá um colega meu.
De outra vez tive de transportar um morto de lá até à morgue, foi quando entrei de serviço, ele estava caído no fundo da doca. Ninguém sabe o que aconteceu, apareceu lá caído. Outro morreu na secção de tubos, dentro dum navio, levou com um tubo que estava içado por um guindaste. O tubo rodou e apanhou-o. Morreu logo.
Alguns morreram queimados num navio. Incendiou-se e tiveram de fechá-lo e eles ficaram lá dentro.
Antes de entrarmos ao trabalho picávamos o cartão. No princípio picávamos o cartão lá dentro do estaleiro. Depois passámos a picar o outro cartão, que era electrónico, lá à porta.
O único intervalo que havia era o da hora de almoço.
Havia refeitório. A alimentação era variada e as cozinheiras faziam parte da Lisnave. Aquilo havia ali tanta mulher! No refeitório, nos escritórios, havia mulheres por todo o lado… Mas a maior parte era homens, não havia mulheres a trabalhar na mecânica nem no trabalho manual.
Nos primeiros tempos eram os pagadores que nos davam o salário. Mais tarde começámos a receber pelo banco. Houve uma vez que ficámos sem salário, iam dando aos poucos.
Vestíamos fardas da casa. No princípio tínhamos fato-de-macaco e depois era umas calças, uma camisa e um blusão. Tínhamos o nome na camisa.
Durante o regime do Estado Novo não reparei em nenhum tipo de controlo das conversas dos trabalhadores. Que eu tenha reparado não!
Mantenho contacto com alguns dos colegas que vou por aí encontrando.
Passavam lá petroleiros, navios de carga e paquetes para serem reparados e limpos.
A saída dos navios das docas era fiscalizada. Eram pessoas dos seguros dos navios que vinham ver se estava tudo em condições.
Lembro-me de uma manifestação. Fomos ali para a Ponte 25 de Abril, estava o trânsito cortado, apareceu a polícia do lado de Lisboa. Começaram a mandar granadas de gás. Tive de fugir por ali fora, passei pela estrada que vai para a Costa, havia ali umas couves e tive de passar por cima delas. Depois ao pé do campo de futebol da Piedade tive de saltar um ribeiro e fiquei lá dentro com água pelos joelhos. Um colega meu é que me veio de lá tirar.
Guardo como recordação duas medalhas. Uma da inauguração da Doca 13 e uma dos 25 anos de casa.
Só sai da Lisnave quando me reformei. Entrei em 1966 e saí em 1994.




Nome completo: José da Silva Barras
Idade: 68 Anos
Local de Nascimento: Moura, Beja
Situação actual: Reformado

Foi fácil conseguir o trabalho porque eu já tinha trabalhado num arsenal, onde aprendi as primeiras coisas, como trabalhar nos barcos, ainda fui trabalhar numa fábrica de adubo e só depois é que fui para a Lisnave para trabalhar no sector dos empreiteiros.
Fui para lá trabalhar porque era onde se ganhava melhor no país, por isso, vim do distrito de Beja para Lisboa à procura de melhores condições.
Para entrar para a Lisnave tive que fazer exames médicos, era rigoroso, a nível físico principalmente como á visão e também á saúde.
A função que eu exercia na Lisnave era de mecânico de bordo.
Eu participei na reparação de um gerador gigante que correu mal. Um chefe de serviço teve de fechar a válvula da entrada do gasóleo, depois o gerador parou e ficou todo derretido.
Fazia todos os turnos.
Quando entrei, ganhava dois contos e seiscentos por mês.
Para reclamar o salário era na portaria, recebíamos um envelope com o nosso nome, dada altura passou a ser posto na conta, onde a partir desse momento, passaram a dar 2 horas por dia, para levantar o valor do salário ao banco.
O salário foi uma das razões que me levou a trabalhar na Lisnave pois ganhávamos o dobro das outras pessoas que tinham outros empregos, porque o trabalho em si, era duro.
A Lisnave estava bem organizada, o refeitório parecia um género de um hotel, e estava principalmente organizada por secções: mecânica, caldeiraria, tubos, andaimes, manobras entre outras.
A minha secção consertava tudo o que era ligado à parte dos motores ou mesmo geradores dos barcos.
A cor do capacete da minha secção era azul.
As mulheres só trabalhavam na administração e no refeitório porque a bordo, ou seja, no trabalho duro, só existia a presença de homens.
Havia, a mim até me inscreveram num jornal, as notícias de amadora, que quem escrevesse nesse jornal estava com um “pé cá dentro e outro cá fora”. Tinha um amigo que o inscreveu e teve no risco de ser preso. Como comunista.
Ainda mantenho contacto com muitos, ainda temos almoço onde nos juntamos.
Com “fato-macaco”, pois por vezes tínhamos de estar dentro doa motores e o óleo caía-nos para cima, o óleo começava mos a cair por cima do corpo e da cabeça e por vezes á hora de almoço tínhamos de ir trocar de fato.
Eu não tive nenhum acidente mas tive ocorrência de dois acidentes: um foi no Bahrein, onde os filipinos tinham desmontado uma baleeira, onde um rapaz entrou e ele lá dentro foi transportado por uma grua, acabando por cair a uma dada altura, ficando completamente desfeito. Para além desse tive conhecimento de um homem, que lhe caiu em cima uma chapa de ferro com varias toneladas ficando esmagado.
Fui para o Bahrein mas não pude levar a minha família porque só os chefes é que tinham autorização.
Pelo que sei era 16 anos, sendo o limite de idade para lá trabalhar era 35 e às vezes mais pois iam buscar pessoas especializadas a outros locais como à marinha e à polícia para desempenharem cargos mais importantes.
A Lisnave exigia a quarta classe e também tínhamos que frequentar as aulas de formação.
Eu assisti a inauguração da doca onde houve uma grande festa onde deram uma medalha a cada um.
Na pior fase da Lisnave não fui despedido mas saí por minha decisão, pois atrasava nos salários e as condições começaram a piorar, existindo muitos despedimentos como muitos amigos meus e até familiares, e na minha opinião por também, questões politicas.
Tive também ocorrência até de um amigo meu que por se inscrever na CGTP foi despedido.
Na minha opinião a Lisnave só dava prestígio em algum tipo de coisas, como por exemplo um empréstimo ao banco, que por vezes por se pertencer à Lisnave e terem conhecimento dos altos salários existia mais facilidade em obtê-lo.

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